marioneteatro

20 Setembro

FILIPE
Fecho os olhos para me sentir. Sinto os músculos lombares a latejar. A minha cabeça não está bem colocada. Sinto os meus braços a deslocarem-se no ar. Cruzo as mãos sob a cabeça. Sinto-me tão mais confortável, sem “picadas”. Sinto uma aragem nos pés. Sinto a luz nos calcanhares.
Começo a sentir um formigueiro nas pontas dos dedos das mãos. Deve ser isto que a Lucília sente na cabeça… A minha irmã, quando era pequena, costumava dizer que não gostava de 7up porque… sabia a “piquinhos”… não, era a pés chatos… não, eram pés dormentes. Porra, adormeci! Desliguei. Quanto tempo terei estado fora? A Lucília tem os olhos fechados. A perna do Mário não contrai nem descontrai. Sinto a minha boca. Sinto os meus dentes, como se estivessem a crescer mais, e mais… carago! Outra vez! Será que ronquei? Abre os olhos, abre bem os olhos! Revira-os. Ouço o autocarro a passar. As folhagens das palmeiras fazem um ruido semelhante a uma praia. Estou na mesma posição que tenho quando me deito na toalha de praia. Vejo o mar. Respiro fundo… Abro os olhos. A Lucília tem os olhos abertos. Olhou para mim. Queres ver que eu adormeci novamente? Não me lembro… o que é que eu estava a pensar? Já sei: não me posso esquecer… Adormeci três vezes. Ou serão quatro? Pelo menos três. O que é que eu fiz no início? Lembrar: pés dormentes, dentes… Eu devia ter ficado no que me circunda.
Ouço o sino da Cabra. São quatro horas. O Mário mexeu-se. Tossiu. Será para pararmos? Não parece. Ele olha para a Lucília. Ela não reage. Deve ser para continuar… Pouso o queixo no chão para endireitar a cabeça. O chão é frio no queixo. Pouso as mãos ao lado do tronco, em posição de flexão. Porque raio é que me pus assim? Não fui eu que tomei a decisão. Acabou-se.

LUCÍLIA
Estou deitada de lado. Olhos fechados. Tenho um pouco de sede ou apenas a boca seca. Abro os olhos, volto a fechá-los. Penso em muita coisa. Estamos outra vez aqui. Penso em muita coisa e em nada, é apenas barulho (o mar outra vez?). As árvores, as árvores que já estavam decifradas ( palmeiras); muitos pensamentos e nenhum. Mota!
Uma mota rompe com tudo, impõe-se depois um passarinho. De repente, lá fora há mais coisas. Tenho as nádegas contraídas.
Estou deitada sobre o flanco direito, o meu rabo em cima da minha mão. Tenho formigueiro na mão, mas não tenho dores nas costas. Se tenho formigueiro na mão é porque o sangue não chega lá. Se minha mão inchasse como um balão, como um daqueles pássaros balão…
Estou a divagar, por momentos parece que tudo, lá fora, está em silêncio, mas sou eu que já estou longe. Voltar ao presente. Espasmo! As minhas nádegas relaxam e é como se acordasse, ia cair do chão onde já estou estendida! Abro os olhos. O meu espasmo fez barulho, o Filipe está a olhar na minha direcção.
Paredes brancas, tecto branco, alguns piados. Hoje distingo melhor o piar do que ontem. Será porque ontem não estavam cá, ou porque hoje estou mais atenta?
Estalei um ossinho da anca. Muito de mansinho, mexo-me milimetricamente para realinhar. Há quanto tempo é que não sinto formigueiro na mão? Pois, já não sinto formigueiro na mão(!), agora, só pressão no pulso. A mão continua debaixo o corpo.
Hoje há menos vozes lá fora, parece-me. Mas há mais sinos, mais sinos e mais piar.
Mesmo depois de abrir os olhos, é como se continuasse imersa naquele espaço – a minha cabeça – portanto, é melhor voltar a fechá-los, é mais confortável.
Agora que tento recordar, é como se tudo mergulhasse numa penumbra acinzentada, um pouco líquida, mais confortável que o branco das paredes.
MÁRIO
Sinto o corpo a pesar no chão. A parte de trás da perna esquerda parece estar toda apoiada no chão. A direita sinto mais o calcanhar, a barriga da perna, uma parte da coxa e o rabo. Os pontos onde sinto maior pressão com o chão são os calcanhares, o ilíaco, os omoplatas e a nuca. Como se fosse uma ponte com esses pilares de sustentação. As mãos estão quentes. A mão esquerda está a arder. Está numa posição semi-fechada, como se estivesse a agarrar algo. Sinto a pressão na mão como se estivesse a segurar algum objecto.
Tocou um sino. Quatro vezes e depois, num tom diferente, mais quatro. Quatro horas. Ontem ouvi também o sino, mas às três. O barulho dos carros preenche o som de fundo. Um autocarro, mais sonoro, chia de travões. Toca outro sino, mais próximo, quatro vezes e, noutro tom, mais quatro. Quatro horas. Tento lembrar quais as igrejas aqui próximas. Não me lembro de nenhuma. Lembro-me de uma em Montes Claros. Seria essa? Mas aqui próximo não me lembro. Há várias na Baixa, mas o som foi demasiado próximo. Ou estarei enganado?
O sino mais próximo, pareceu-me o mesmo, tocou mais quatro vezes. Por que será? Abro os olhos. O tecto surge branco brilhante. Tem um desenho trabalho. Que tem uma caixa de derivação no centro. E dois fios a sair por cada um dos lados para uns candeeiros presos ao tecto. O branco do tecto foi ficando amarelado, sépia. No limite inferior do meu campo de visão alguma coisa se move, na janela, desfocada, em segundo plano. Sem conseguir ver uma imagem definida, consigo associar o tipo de movimento às palmeiras do jardim. É uma palmeira a ondular com o vento.
Mexo os olhos para trás, sem mover a cabeça. A parede tem dois pequenos pontos mais negros. Parecem riscos de lápis. E uma mancha vertical de sujidade em cada um deles como se alguém os tivesse tentado limpar com um dedo. Há mais riscos à volta. E imperfeições. A parede está bastante suja. Movo os olhos para a direita, sem mover a cabeça. O corpo da Lucília está ali. Sei que é ela embora não consiga focar a imagem por estar no limite do meu campo de visão. Viro os olhos para o outro lado. O Filipe. A mesma coisa, não consigo focar. Se não soubesse que era ele não conseguiria identificar. Penso que não conseguimos focar na zona da nossa visão periférica. Para focar algo temos de “apontar os olhos” para lá. Estou a sentir uma impressão na garganta. Engulo. Sinto o engolir nos ouvidos, uma sensação líquida. Foco os olhos a uma distância antes do objecto mais próximo, um ponto perto de mim. Vejo pequenas manchas negras a boiar algures nos meus olhos, que se movimentam com o movimento involuntário que eles vão fazendo. Parecem pequenos restos de teia de aranha. Imperfeições algures nos meus olhos. Serão permanentes? Ou temporárias, como partículas de sujidade que boiam num líquido? A impressão na garganta vai crescendo. Não consigo evitar tossir. Tossi.

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