marioneteatro

FILIPE | 19 Set 2012

In Filipe on October 5, 2012 at 3:42 pm

Estou cansado! Dói-me tudo! E ainda pedes que me sinta? Que feche os olhos e olhe só para mim? Mas eu já nem me sinto… Não tenho noção de mim mesmo. Quando me observo, milhões de pensamentos atingem-me como raios numa tempestade. O meu corpo reage quando o sistema fica sobrecarregado.

A minha consciência é como um esquilo: após tentar captar algo, logo outra coisa me distrai. É demasiado rápido para mim… Muito bem, concentra! Foca! Procura encontrar no que te circunda aquilo que nada mais é que uma projeção de ti mesmo. O mundo sem ti, realmente, não existia, não é? Tu és a medida de todas as coisas.

O mundo é constituído de elementos dos quais vais ganhando consciência. Mas quando a ganhas… zás….já foi, já era… já está armazenado na memória. E pensas que nada mais há a saber, nada mais a descobrir. Tu já sabes! E já tens os ouvidos cheios de tanta coisa, os teus olhos já viram, o teu nariz já cheirou. E estás demasiado cansado, não é? Recosta-te na cadeira. Descontrai.

Fecha os olhos! É curioso que, para nos vermos, não podemos olhar.

LUCÍLIA | 19 Set 2012

In Lucília on October 5, 2012 at 3:41 pm

O tapete sonoro do trânsito faz lembrar, por vezes, o mar, por vezes confunde-se com o som do vento nas árvores. Estou de olhos abertos, vejo um pássaro, quero ouvir o seu som. Os carros abafam-no.

Por vezes uma voz, o que diz, ininteligível, voz masculina. Oiço, de vez em quando, o som das vértebras do meu pescoço estalar. Tomando consciência disso, tomo, igualmente, consciência dos meus batimentos cardíacos. O Filipe engoliu saliva.

Fecho os olhos e oiço um vago piar (será o daquele pássaro que vi antes?). Agora, com os olhos fechados, oiço mais barulhos dentro de mim. Um pouco mais longe, uma voz feminina, outra em resposta, alguma coisa a bater, uma travagem brusca, o meu pescoço estalou outra vez, estou consciente da minha consciência, abro os olhos, mas os pensamentos já não se calam, ficam, talvez, em segundo plano. Carros, autocarros? Penso que sim, oiço e penso que sim. Mais uma voz. As vozes são pontuais, os carros estão sempre lá: agora longe, agora perto.

Pombas, ratazanas aéreas(!), outra coisa a bater ( cargas e descargas?). Engoli saliva. Estalou uma coisa atrás da Cortina atrás do Mário.

Ah! São palmeiras, o barulho das árvores é das palmeiras. Aviões sobrevoam todo o barulho depois de uma grande vaga. Alguém mexeu em madeira.

MÁRIO | 19 Set 2012

In Mário on October 5, 2012 at 3:38 pm

Gotas de suor a escorrer pela cara e corpo. Respiração a empurrar o peito por dentro. Queixo descaído deixa-me uma imagem de boca muito aberta. Saliva na borda do lábio inferior quase no limite. Uma brisa muito ligeira toca-me a cara e provoca uma sensação de frescura, agradável.

Mãos inchadas e pressão nos antebraços vinda de dentro, contra a pele. Calor no contacto dos pés com o chão. Sensação de peso, de difícil erguer dos pés se quisesse. Pressão do peso sentida nos músculos da parte inferior da perna e nos joelhos. Músculos da parte superior vão-se tencionando de tempos a tempos para manter o equilíbrio. O dos joelhos também. O esfíncter estava sobre tensão. Relaxei-o. Músculos das pernas tiveram de recompor o equilíbrio. A espaços uma gota de suor desliza pela pele e chama a atenção para ela. Volto depois à inspecção do corpo.

Sinto o peso da camisola molhada de suor contra as costas e o peito. “Lá fora” há um som de fundo como um ruído branco. De pouco tempo em pouco tempo passam carros que fazem lembrar o som das ondas do mar a uma certa distância. Os autocarros fazem um som mais forte, já não mar, e ouve-se o chiar dos travões. Um cão ladrou várias vezes, latidos curtos, criou-me a imagem de cão pequeno. As vozes de duas mulheres. Uma fala à outra sobre qualquer coisa para alguém. Uma pomba arrulha, primeiro de um modo simples, depois mais complexo. Senti a brisa outra vez. Comecei a sentir necessidade de respirar profundamente. Também de engolir. Senti que o estado de repouso estava a diminuir. Abri os olhos. Branco. Vi o Filipe de cor preta e a Lucília de verde. Tinham os olhos abertos. A olhar à volta para a sala apercebi-me de manchas de sujo nas paredes e de uma estante ao canto. Também me chamou a atenção as diferenças de tom provocadas pelas sombras nas paredes e portadas. A Lucília olhou para mim e sorriu. A Lucília olhou  para o Filipe. E voltou a olhar para mim. E depois para o Filipe. O Filipe sorriu abertamente. A Lucília também. O Filipe avançou um pé como que a desafiar a Lucília a fazer algo. A Lucília pareceu não aceitar o desafio. O Filipe recolheu o pé e parou de sorrir. Eu levantei um pé e pousei mais ao lado. Soube-me bem. Fiz o mesmo ao outro e acrescentei a intenção de dar a entender que o exercício podia terminar. Todos os três “desformámos” e soltámos os movimentos.

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